Limbo. Desde o chamado boom do rock gaúcho dos anos 80, quando brilhou uma luz no fim do túnel para a (se é que podemos chamar de) indústria fonográfica deste que é o estado mais meridional do país, nada de espetacular acontecia na cena roqueira de Porto Alegre (minto, a aparição do Kingzobullshitbackinfullefects do DeFalla foi algo espetacular, um disco fundamental na história do rock brasileiro e também a última vez que o DeFalla tocaria com formação e repertório decentes, o Edu em sua melhor forma, todo o gás e a malemolência funk, gritos irados à la James Brown e uns dreads de fio de lã colorida colados com bonder direto na cabeça). Passada quase uma década do tal do boom, a luz no fim do túnel parecia ser o trem vindo contra.
Bandas cover. Esse era o boom do início dos anos 90. Boom-dão. U2 Cover, The Doors Cover, Legião Urbana Cover, Deep Purple Cover, os nomes eram originalíssimos e os vocalistas, normalmente, uns clones mal projetados dos frontmen das bandas as quais tentavam imitar. Então o Bono Cover era meigordinho e usava uns óculos escuros iguais aos do Bono; o Jim Morrison Cover tinha um cinto de medalhões prateados, calça de couro, bota de caubói, cabeleira; o Renato Russo Cover de barba, camisa branca, óculos de grau e assim por diante. Uma epidemia, as bandas cover se multiplicando de forma alarmante e tomando conta dos escassos lugares que havia pra tocar na cidade, até que não sobrasse quase nada para sinceros roqueiros interpretando composições próprias.
Alguns poucos artistas e grupos da década anterior ainda persistiam bravamente seguindo o ensinamento do ditado gauchesco que diz “não tá morto quem peleia”. Júlio Reny arrebatava corações apaixonados com uma repaginação do seu antigo Expresso Oriente e, logo depois, com uma guitar band; Wander Wildner trocara Os Replicantes pelo podresco Sangue Sujo e os Replis contra-atacavam com o Gerbase assumindo os vocais; o Defalla chegava ao ponto alto de sua carreira, culminando com uma apresentação polêmica num enorme festival com nome de marca de cigarro, no Rio; remanescentes do TNT se erguiam das cinzas num formato poser à la Guns’n’Roses muy em voga no período.
No submundo cultural, sobrevivia-se graças a (como sempre) iniciativas modestas como festinhas em estúdios e apartamentos, shows em butecos desqualificados e uma ou outra tentativa em alguma casa de show com maior infra-estrutura – tentativas estas fadadas ao prejuízo total, mediante as condições aviltantes geralmente impostas pelas casas (aluguéis de PAs carésimos, porcentagens injustas nas bilheterias, custos com divulgação exorbitantes). O Ocidente, um marco da resistência alternativa, passava por uma fase dance, tendo ampliado seu espaço com uma enorme pista de dança e fechado suas portas pro rock: nenhum show rolava por lá. No circuito estudantil, uma banda formada por uns estudantes de biologia da UFRGS, a Ultramen, agitava uns showzinhos bicho-grilo no campus central. Alunos das belas artes promoviam umas festas malucas, porém bissextas, no último andar do Instituto de Artes, um clima de liberou-geral entre estudantes, artistas, músicos e os freaks de plantão que podiam assistir a shows de bandas total arty, tipo a Pére Lachaise, do sydbarretiano Plato Dvorak ou a Aristóteles de Ananias Jr., uma versão mais hardcore (no sentido atonal) da Graforréia Xilarmônica.
A volta da Graforréia também foi um acontecimento importante pra cena da cidade. A banda tinha lançado há alguns anos uma fitinha demo – esses eram tempos pré-cd – que teve boa aceitação entre o público ligado na produção roqueira local. A Graforréia tinha um pequeno séquito de fiéis que comparecia religiosamente a seus shows, cantarolando e dançando todo o repertório da banda, umas canções neo-Jovem Guarda cantadas num sotaque tri-portoalegrense e repletas de trocadilhos infames, piadinhas sexistas e sacadas poéticas nonsense.
Eis que, do nada, a Graforréia decide pendurar as chuteiras e abandonar os palcos.
Após uma breve pausa, de um ano, mais ou menos, a banda volta pro segundo tempo com uma formação mais enxuta (de quarteto passou a trio), velhos sucessos rearranjados, todo o gás, prontos pra agitar a cena novamente.
(continua)

Por Léo Felipe