Macacos, Ratazanas e Pássaros

Dedicado a todos os perdidos precoces que hoje são livres;

A última gota de amor foi pelo ralo. Treze anos apenas, sentia na pele a falta que o amor lhe fazia. Saiu correndo pelas ruas pra tentar esgotar-se. Afogar um sentimento que não cabia dentro dele. Uma fúria estranha da qual não sabia direito qual era a origem. Os transeuntes não o percebiam, pois o caos do meio-dia era grande, um louco a mais, outro a menos correndo na rua não fazia diferença.

Corria esbanjando juventude, tudo estava no auge, o tesão, a capacidade de amar, a beleza, a disposição. Então seu padrasto chegou em casa pela milhonésima vez quebrando todas as coisas que encontrava no seu caminho. Quando lembrava daquilo não sentia-se digno. Era estranho, não achava-se normal. Na escola saía fora do corpo, não ouvia nada e ficava no mesmo canto. Vivia em outro mundo e era quase imperceptível.

Sendo rato de SOE, sua mãe nunca aparecia na reunião de pais e mestres. Para os professores ele era um caso perdido. “Pobre guri, sem pai nem mãe nesse mundo“, “o que será dele?” “Se não virar marginal, não terá futuro.” Esses comentários ouvia uma vez ou outra de dentro da sala da diretora. Eles dizendo que era para seu bem, a mesma ladainha de sempre, na verdade lhe excluíam de uma maneira mais cruel do que seus colegas que eram crianças.

Correu, correu, correu. Parou, pensou… Correu de volta. Abriu a porta do apartamento e aquele monstro estava de pé na sala fedendo a álcool. Sua mãe parecia uma ratazana amedrontada no canto da cozinha. Ele veio pra cima do garoto caminhando como um macaco. Lhe deu um empurrão e o franzino garoto caiu sentado. Um retrospectiva de quantas vezes baixou a cabeça perante ao macaco veio na memória. Perdeu as contas. Não bastavam só os dedos das mãos para contar. Uma vez sentia pena da mãe. Mas naquele momento parecia que os dois eram feitos um para o outro. Ela sempre limpando vômito, retirando as queixas da delegacia da mulher, cozinhando, tirando a poeira dos móveis dez vezes por dia e sempre sorrindo pra não apanhar.
O garoto levantou-se com muita calma e confiança. Sabia onde despejar o magma incandescente que havia no seu coração. Furtivamente foi até o quarto.

Chegou nas costas do monstro, viu sua mãe no chão chorando como sempre. Fechou os seus olhos e deixou a fúria rasgar sua carne. Desferiu o golpe mais forte que dera em algo na cabeça dele com o bastão de jogar taco. Caiu. A fúria deveria ter acabado, mas continuava a brotar de um jeito estúpido e brutal. Continuou batendo, batendo, batendo e batendo. Perdeu a noção de tempo. Seus braços já doíam e decidiu parar. Largou o taco ao lado do monte de lixo que ainda respirava. Voltou-se para a ratazana e lhe disse com uma convicção de um homem feito e decidido:

Gostaria de lhe dar uma surra também. Mas tu apanhou demais. Chega. Tô indo. Te ferra! Tu merece essa coisa aí. Hoje tu perde um filho e ganha um marido paralítico.”

Saiu pela porta com um sorriso nervoso e estranho no rosto. O fim da adolescência foi tão brusco. Um homem com uma cara de guri andou nas ruas à procura de um lugar qualquer. E um dia a sensação de abandono que sentiu a vida inteira transformou-se em liberdade.

Por Maikel De Abreu

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