Cego de raiva
- quarta-feira, dezembro 19, 2007, 16:02
- Crônicas, Taxitramas
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Um passageiro embarcou atucanado em meu táxi. Não me cumprimentou, sequer olhou para a minha cara, apenas apontou para frente e ordenou:
- Toca, toca!
Percebendo que o cara não estava para brincadeira, obedeci e toquei em frente. Não tive coragem nem de lhe pedir que colocasse o cinto. Deixa quieto.
Era um cidadão de uns 50 anos, se tanto. Barrigudo, barba por fazer, vestido de forma humilde. Trazia no colo uma mochila surrada. Mesmo não estando muito quente, bufava e suava feito um condenado. Estava visivelmente transtornado.
Entre um resmungo e outro, lá pelas tantas, meu incomodado passageiro deixou escapar um pensamento em voz alta:
- O Casemiro não sabe com quem está lidando! – esbravejou.
Pronto, era isso, meu cliente tinha uma desavença com um tal de Casemiro. Algo me dizia que havia uma arma naquela mochila. Preferi ficar quieto.
Sempre olhando para frente, como se eu não estivesse ao seu lado, o homem começou a desaguar toda a sua fúria em voz alta, como se falasse consigo mesmo:
- Vou te enfiar uma bala nos cornos… Ninguém brinca assim comigo, seu desgraçado… Ladrão, sem-vergonha, tu vais ver com quem tu te metestes, Casemiro…
A essas alturas meu plano era parar o táxi assim que avistasse o primeiro brigadiano e sair correndo. Mas a corrida chegou ao fim sem que aparecesse um agente da lei.
Meu passageiro, então, ordenou que eu parasse o táxi na altura de um bar que havia no outro lado da Avenida Protásio Alves. Pagou a corrida, sem esperar pelo troco, e saiu em disparada.
Ignorar o taxista ao seu lado, tudo bem. O erro daquele homem foi ignorar o movimento de uma Avenida como a Protásio Alves.
Morreu atropelado por um ônibus – para sorte de um certo Casemiro.![]()
Por Mauro Castro
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