The Little Sisters. Uma era (minha) irmã e a outra praticamente. Amigas inseparáveis. Ambas menores de idade. Uns quinze cada, creio. A Flavinha e a Virgínia. Típico exemplo do nosso grau de irresponsabilidade, não bastasse os menores que iriam freqüentar o bar. Criaram lindos objetos que iriam marcar a decoração do Garagem em várias épocas: os peixinhos de tecido que ficavam na parede atrás do bar, a tabela de preços forrada de papel laminado e botões antigos, a aranha de fio preto e durepoxi na porta do banheiro das mulheres. Foram também as piores garçonetes que o bar já teve. Bebiam mais que vendiam. Na hora de pagar o salário, a gente dizia: vocês nos devem trinta, cada uma. Bebiam por noite quase duas vezes o que ganhavam por noite. Uma vez compramos uma garrafa de vodca importada pra qualificar o nosso bar. Enxugada na primeira noite. Pelas irmãzinhas.
Seguranças não havia.
Meio minuto antes de abrir o bar. Tudo OK (pros nossos padrões, ao menos), exceto pela tinta óleo da pintura Pollock de última hora das mesas e cadeiras que não secou a tempo e mancharia a roupa de alguns dos nossos primeiríssimos clientes, também inaugurando um certo padrão de expectativas: vá ao Garagem e tudo poderá acontecer com você, desde se dar bem no banheiro até ter sua calça predileta manchada irrecuperavelmente (ou quem sabe levar um alto-falante na cabeça: isso aconteceu com uma amiga, dançando feliz na pista quando o último de uma pilha de quatro alto-falantes despencou em cima de sua pobre cabecinha, levous uns pontos e na outra semana já estava lá de novo, dançando mais pro meio da pista, e isso me lembra uma vez que um globo de espelhos caiu em cima da cabeça de um cara bem no meio da pista, mas aí já é digressão por demais). Eu gelava de expectativas, frio na barriga, cheio de dúvidas, pensando num mundaréu de coisas que poderiam acontecer, turbilhão de emoções.
Será que a gente vai conseguir segurar esse tranco?
Pagar todas as contas?
Aluguel?
Luz?
Fornecedores?
Funcionários?
E se não aparecer ninguém na primeira noite?
A gente faz o quê?
Fecha o bar no dia seguinte?
Se mata?
Será que eu me meti numa roubada?
E se a mãe tinha razão?
Com que cara eu fico com o Bernoto?
E se eu mato o Bernoto?
Em meio à ansiedade, a excitação e as inúmeras cervejas, a noite transcorreu sem maiores transtornos. Nenhum escândalo que coroasse de estréia o nosso destino escandaloso. Nenhum acontecimento bizarro. Talvez apenas uma ou outra bolinação mais intensa, algumas droguinhas pesadas e um prazer sincero em dançar ao som da boa música.
Nosso freak show estava apenas ensaiando suas primeiras coreografias.
E a noite permaneceu na lembrança como uma bolha azul de vagas recordações, vaguíssimas. Basicamente colocando som na cabine do DJ, que era do lado do palco, vendo entrar o Luke, um carinha que tocava guitarra superbem, mistura de Tom Verlaine e Roger McGuinn, mas que acabou abandonando o ronquenrol (como muitos daquela época), o Luke e sua turminha foram os primeiros. Depois já estavam todos os amigos e alguém disse bota um som mais animado (porque eu ainda fazia um clima lounge de aquecimento) e aí comecei a esquentar a pista e as pessoas se levantaram das cadeiras com as calças manchadas de tinta e foram dançar e a coisa pegou fogo.
Lembro também do Six chegando com a namorada.
A festa tá ducaralho. Dizia o Six, cabeleira despenteada, jaqueta jeans e um jeitão de Jim Morrison.
E o som tá muito legal. A namorada (a Bia, uma que se mudou pra Londres e hoje deve ser vegetariana).
O Six perguntou se eu não queria fumar um com eles.
Só deixa eu colocar um disco antes.
Coloquei uma coletânea dos
Sex Pistols, aquela que tem um
cocô na contracapa. Saímos do bar e sentamos na frente do casarão, bem na porta da lavanderia. Um
baseado importante na minha vida. De volta à pista, o pessoal dançava a faixa cinco com a mesma empolgação da faixa um, mas quando cheguei na cabine bateu um pânico horrível. Eu detestei estar chapado. A maconha tinha me deixado completamente
descoordenado, confuso, paralisado. Dar um simples play se tornou uma coisa
complicadíssima, os botões e as luzinhas do mixer terrivelmente ameaçadores. Mas no fim foi happy end. Consegui controlar a paranóia e os clientes dançaram felizes. Vendemos o freezer inteiro, as garçonetes não
vomitaram muito, nenhuma briga, clientela satisfeita. A sensação do dever cumprido. Recordações de alegria, otimismo e esperança, boiando difusas numa grande bolha azul. Até aqui tudo bem.

Por Léo Felipe
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