A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE – Capitulo 3 – A primeira noite do resto de nossos dias – Parte V
- terça-feira, dezembro 18, 2007, 1:22
- A Fantástica Fábrica de Chocolates, Crônicas, Foguete Formidável
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Era uma noite quente de primavera. Dentro do casarão, a única fonte de luz era uma lâmpada ligada a um rabicho que levamos pro lado do palco. O ambiente era caótico, tábuas e tijolos, serrote, fios, pregos e martelo, os indícios da obra espalhados pelo chão. Encontrei, pela metade, uma garrafa plástica de cachaça do Popeye e servi um pouco num copinho de extrato de tomate. O Popeye também tinha um radinho e o Régis ligou-o e sintonizou na Continental. Fechei um baseado e ficamos conversando, os três, ao som daquele Fabuloso Som dos 70’s: Billy Paul, Donna Summer, Wings, Barry Manilow. Contei como seria o bar e todas as nossas idéias de festas e shows e precisamos agitar essa cidade que não tem um lugar legal pra gente se divertir e ver um show e dançar uma música boa e eles ouviam atentos, a cachaça plástica do Popeye pegando forte, a fumaça e o som do radinho se espalhando lentamente pelo casarão vazio e escuro. Pensei se tudo der errado eu não me importo, já está valendo a pena. Eu sabia que não ia ser um comerciante pro resto da vida, mas a verdade é que não encarava a minha empreitada como um comércio: era um estado de espírito, a tentativa de realizar aquela obra de arte que eu queria fazer mas não sabia como nem quando e muito menos qual. Tinha a ver com acreditar em certas coisas, muito mais que com ganhar dinheiro vendendo cerveja, e era isso o que eu pensava e falava pro Régis e pra Liana naquela noite quente de primavera e também sobre tantos outros planos (sonhos) sentado no palco do bar que eu inauguraria em uma semana, quando subitamente percebi que eu era feliz e sabia.
O trabalho do Popeye tinha terminado, mas o nosso estava longe de acabar. Pegamos pesado na semana-reta-final, martelando, pintando, limpando, arrumando, decorando “entre aspas”. Glamour nenhum, só trabalho braçal.
Passou a semana e chegou a grande noite. Tirar o cabaço. Todo mundo nos maiores penteados & terninhos & vestidos. A staff preparada e bem passada quem nem criado de casa de verão de lorde esperando a chegada do patrão.
A propósito, algumas palavras sobre ela, a staff. Nossa Armada Brancaleone do trago:
Narciso era o DJ. Mas como disse um amigo, é colocador de som mesmo, apertador de play. Se bem que naquela época tinha um prato e discos de vinil, mas sem criação, scratches, mixagens e essas pirotecnias. Anti-DJ. Era dar play e só e às vezes até isso era muito. Mas eu era o dono da (dos) bola (discos).
Rick Red Neck e Marcos Murruga. (In)Gerência. No início eles não botavam som. Ficavam solamente administrando. Uma beleza, administrar era também encher freezer, resolver problemas, carregar peso. Colocar som era só colocar som, dar play praticamente, às vezes nem isso. Mas não durou muito. Um dia eles socializaram o trabalho e como eu era apenas 33,3 contra 66,6 (a Lucianinha nunca opinava) fui voto vencido. Não fui baixo a ponto de: os discos são meus. Não. Viramos todos DJ-administradores. Mas voltando aos 66,6, era notável o quanto contrastavam em temperamento e personalidade: MM, o Pequeno, era algo como uma raposa (dada a ataques esporádicos de fúria) em esperteza e malícia, enquanto Ricardo, o Ruivo, era ingênuo, franco e pacífico, características que iria abandonar com o tempo, depois de uma vida de agruras – problemas financeiros, mulheres histéricas, drogas pesadas, fiscais do imposto de renda e da vigilância sanitária no encalço – transformando-o num machista durão, implacável polvo capitalista.
Lady 16,65%. Além de mentora intelectual, divulgadora e produtora, Lucianinha se dividia entre o caixa e a cozinha (que consistia numa folha de compensado sobre dois cavaletes com alguns vidros de maionese, mostarda e catchup, azeitonas e salame, e uma geladeira com outros adereços que servissem tira-gostos rápidos, comidinha de bêbado, que com o tempo até os bêbados parariam de comer, terminando a cozinha desativada até o episódio sushi-bar, mas isso já é um outro capítulo). Na cozinha, Lucianinha era habilidosa no preparo de picadinhos com molho de maionese, mostarda e catchup. Mrs. Murruga também não escapava da limpeza, assim como toda a staff, DJ incluso.
(continua)
Por Léo Felipe
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